quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O fantasma literato

Eu nunca fui um bom falador, nem um orador, nem nunca dominei a retórica como deveria. Quando as palavras saem da minha boca, um punhado delas faz sentido e se organiza razoavelmente de acordo com a semântica e com a sintaxe. Entretanto, sempre chega o momento em que elas se embaralham, e eu me torno tão ininteligível quando caligrafia japonesa para um ocidental.

Não interessa no momento expor os motivos que me levam a ser assim. Certamente são muito mais complicados para os meus quase inexistentes conhecimentos em psicologia, antropologia, sociologia ou alguma outra ciência que se atreve a explicar o humano. Mas eu sou assim. E infelizmente não sei ser diferente.

O Princípio de todas as coisas, Justo, dignou-se em compensar minha falta de eloquência com certa proficiência em escrever. Eu escrevo certo as linhas tortas da vida, e por algum motivo as minhas palavras tocam os corações sensíveis. Eu sinceramente não sei como eu o faço, mas por vezes, acontece. Acontece que nem sempre este "toque" encontra seu lugar no mundo real, sendo apenas uma boa idéia do mundo... das idéias!

Por quase uma década eu escrevi, escrevi e escrevi. Idéias bonitas, Idéias que qualquer bella donna do século XIX lograria trazer do mundo das idéias ao mundo real em questão de segundos. Mas a minha proficiência falhou. Na verdade, como chamar de falha algo que é semelhante a tudo que sempre aconteceu? Quando muito, devo chamar este acontecimento de "a normalidade mais triste".

Minhas palavras e letras proliferam-se como mosquinhas ao redor da lâmpada numa noite quente. Mas não há tranças descendo do topo do castelo, nem realezas numa cama, rodeada de duendes, esperando um cavaleiro descer de seu cavalo e acordá-la do pesadelo venenoso. Talvez porque não haja lugar no mundo para contos de fadas. Contos de fadas são para crianças. Mas por acaso, o mundo não seria mais leve se nós o olhássemos com os olhos de um infante? Enfim...

O amor é uma coisa séria. Ele não tem explicação, ele cega e dá a visão. Ele escraviza e liberta. Ele causa doenças, e traz a cura. Ele mata, e ressuscita. Ele pode ser o céu ou inferno. Ele pode ser um rebuscado tocar de violinos, ou pode ser o ruído estridente de um pedaço de giz no quadro-negro.

Para mim, por quase uma década ele foi a escravidão, a cegueira, a doença, a morte, o inferno, o som agudo da solidão e do abandono. Certa vez, falaram-me de um certo fantasma da ópera, que sequestrou sua amada soprano no meio de uma opereta. Por outro lado, eu sou senão um fantasma literato, que cura suas feridas porque não há mais o que sequestrar.

Por alguns dias, senti ódio. A linha tênue entre o ódio e o amor desaparecera, e eu passei a odiar. Em seguida, o ódio passou a ser desprezo. Mas um desprezo mais ácido do que aquele que fora dispendido a mim. A acidez foi diminuindo sobremaneira, e hoje o que restou é indiferença. Mas fantasmas também possuem seus fantasmas, num círculo vicioso ectoplásmico de noites mal dormidas, corações apertados e dedos nervosos para enviarem um e-mail, um sms, uma carta. Escrita sempre. Lembram-se? Não tenho talento para a retórica e eloquência.

O coração apertado da espera de uma resposta é um fardo muito pesado. E quando aquela pessoa de quem você espera te tortura com adiamentos e silêncio como resposta, é o fim do mundo, e este comportamento é uma amostra do caráter do qual nós pintamos uma imagem totalmente diferente e, obviamente, falsa.

Amigos, escrevam vocês mesmos seus evangelhos. Sejam para si mesmos a Boa nova que salvará as suas almas do desprezo de terceiros. Amem-se. E se quiserem ser literatos, sejam! Não há mal nenhum em saber se expressar melhor com a caneta na mão do que com verbos na boca. Mas não se tornem fantasmas penando atrás de alguém. Palavra de quem, só depois de muito tempo, engatinha rumo à liberdade que tanto anseiou.

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