domingo, 11 de novembro de 2012

Chorumelas

Quem foi que disse?
Que para ser filósofo
É preciso um diploma
Ou um segundo idioma?

E que para ser benquisto
Não basta o saber interior
Que ninguém é bem visto
Sem ensino superior?

Que ninguém é músico
Sem aprendizado lúdico
Que sem teoria em vista
Não se é um instrumentista?

Para o inferno!
Todos vocês: Vão para o inferno!

Seu preconceito mecanicista
É o paradoxo suicida
Que dá aos homens asas
Para tolhê-las em seguida!

A morte da moral
É o deslumbre bestial
do homem máquina!
Eu, assim, viro a página...

Meu pensar é em versos
Moro, portanto, em mil universos
Neles, com os estúpidos eu acabo
E os mando ao diabo...

Não me venham, pois, com chorumelas!

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Forças poderosas

Eu jurei, em nome da honra quase perdida
Em nome do meu bem-estar
Que eu não seria a ovelha ferida
Que no topo do mundo eu iria estar

Passou um dia, e eu padecia
Como num raio eu desabaria
Não sei com que esta força se parecia
Só sei que ela tudo destruiria


E destruído fiquei por enfrentar
A força que instigou o meu tormento
Tenha eu a força para me levantar
Nunca mais se escute o meu lamento

Não quero sentir minha própria ausência
Ao mesmo tempo, quero viver minha vida
Tenha eu um pouco de paciência
Para achar a cura da minha ferida


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Partida - Parte 4

De uma hora pra outra, começamos a brigar por coisas banais. O sexo já não segurava mais nossa relação, e você cancelou o noivado. Terminamos e voltamos inúmeras vezes, sempre com promessas vãs de que dali em diante tudo ficaria bem novamente. Mas não ficava! Nossos egos, nossos egoísmos, nossas vontades...era foda. As coisas começaram a esfriar, e depois começaram a esquentar novamente, mas num sentido ruim. Numa briga que tivemos, daquelas, você me agrediu na rua, e eu ameacei bater em você. Nos calamos. Tomamos nossos rumos e partimos. Dejávù. Voltamos a nos encontrar para oficializar o término, o segundo término, e foi isso. Eu saí do seu apartamento e fui caminhar na areia, ouvindo as ondas, e aí, novamente, estalo. Sabe, eu ainda te amo, mas durante todo aquele tempo, não era de você que eu sentia saudade, mas sim da imagem de você que eu idealizei dentro de mim. Em alguns momentos você era exatamente o reflexo daquela imagem, mas em outros momentos, não. Creio que o mesmo se passava para você, em relação a mim. Nós não soubemos nos aceitar como éramos de verdade, e por isso nos frustrávamos tanto um com o outro. Sabe, agora eu estou velho, faço 70 anos hoje, e olho para o passado, e vejo que suas qualidades tinham mais peso na balança que os seus defeitos. Eu olho para trás e só vejo nossas glórias, o quanto nos amamos, e o quanto poderíamos ter nos amado, se nossos egos não tivessem influenciado tanto em nosso relacionamento. Eu ainda te amo, de verdade, e espero que você esteja feliz, e que tenha chegado ao mesmo raciocínio que eu, após tantos anos. Hoje nada mais importa. Essa é a ação do tempo. As glórias parecem mais douradas, e o que foi triste, se apaga, além do mais, estou velho demais para remoer tristezas.





quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Aforismos a quem não me lê

Em tudo serei direto
Pois fostes assim também:
Teu hobby predileto
Era pagar com o mal o bem

A distância traz à vida
O valor que tu me dás
Silêncio sem despedida:
Tu não mais retornarás

Quem some no presente
É um defunto do passado
Vivo está quem se ressente
Por ser deixado de lado

Quem fala por assobios
Nem aos pardais se faz entender
Teus muitos sentimentos frios
São o sereno do anoitecer

Se mil aforismos são ditos
A quem carece entender
Estão tapados seus ouvidos
Seus olhos já não podem ver

Deixo então, nesta última estrofe
Uma sentença de muito valor:
Quem pisa num coração nobre
Perde inestimável calor.



terça-feira, 6 de novembro de 2012

Partida - Parte 3

Você atendeu sonolenta. Eu nem lembro que horas era. Conversamos pouco, mas você topou me encontrar no dia seguinte. Era um sábado, e marcamos perto de onde você estava morando, lá em Copacabana. Você estava dividindo apê com uma amiga. A gente se encontrou, você estava linda. Meu coração bateu forte, e logo que nos encontramos te roubei um beijo. Você, de princípio, tentou evitar, mas se entregou. Sua amiga não estava em casa, então fomos para o seu apê e nos amamos como loucos. Você estava menstruando, e montou em mim...eu fiquei todo sujo de sangue, depois te puxei para te chupar, fiquei enxurrado de sangue, você se abraçou a mim, ficou toda suja também...e finalmente gozamos. Cara, que doideira. Parecia que tínhamos matado um porco. Foda-se. Era como nos velhos tempos. Ficamos ali, mas logo me restabeleci e transamos de novo...e seguimos assim até o anoitecer. E quando o sol baixou, já não transávamos mais, mas fazíamos amor. Quando sua amiga chegou, nos pegou nus, exaustos para ter qualquer tipo de reação. Ela viu tudo, riu e saiu pela porta. Pouco depois conseguimos nos levantar, nos lavar e saímos para comer algo. Como de praxe, comida oriental. Conversamos e antes do fim daquele dia tínhamos decidido voltar a namorar. Foi alucinação pura. Você me contou de sua vida, eu te contei de minhas viagens. E assim passaram semanas, meses, passou um ano...porra! A gente planejava noivar. E então, como num estalo, as merdas começaram a acontecer. De novo.





segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Apocalipse num oceano

Era um rapaz, assim, transtornado.Caminhava absorto na música que escutava, mas tão absorto que se um conhecido lhe dirigisse a palavra nas ruas, receberia silêncio como resposta e seria sumariamente ignorado. Não de propósito, afinal ele era uma pessoa muito simpática e nada anti-social, mas por aquilo que ele costumava chamar de sua "lerdeza intrínseca".

E aquela música pesada, densa, era a sua forma de escapar de uma realidade doentia, insana. Era como se, ao se dirigir à guilhotina para ser executado, de repente caísse um enorme feixe de luz do céu, saído de nuvens brancas, e ele por esta luz caminhasse, escapando do inferno até o paraíso. Entretanto, a queda é inevitável, e seu corpo invariavelmente seria queimado pelas chamas da rotina e da loucura humana dos que sobre ele tinham poder e que o cercavam. De segunda a sexta.

Ele arrastava-se da cama, todos os dias, até aquele escritório. Seus colegas? Todos loucos, a exceção de quatro ou cinco. Pode parecer muito, mas dentre o universo dos seus companheiros, é um número pequeno. "Ontem" parece ser uma data especialíssima, pois tudo que se lhe pedia era para aquela ocasião, e quanto mais se lhe pedia, mais o ontem se tornava inalcançável.

No caminho, as conduções deixavam-no desvairado. Espremia-se em troca de uns quilômetros rodados. Cochilos? Sempre acompanhados daquela vibrante música, e jamais se atingia o rapid eye movement. Por um instante ele podia ver o mar, que tinha nele efeito semelhante ao que teria o dedo molhado de saliva que o rico morto implorou a Abraão e a Lázaro, na parábola do Mestre. Mas mesmo assim, o abismo permanecia, e o rapaz desta pequena epopéia seguia rumo ao grande monstro de ferro, que engolia pessoas e expelia pessoas, mas que os digeria ferozmente nas suas entranhas super lotadas.

Ele era fraco? Talvez. Quem sabe isto tudo não passasse de uma narrativa fantasiosa de alguém a fazer tempestade em copo d´água? Talvez. Mas quem se atreverá a dizer que, em seu caso, era um copo d´água? Acaso os copos d´água de uns não seriam os oceanos de outros? Ou quiçá, um universo aquoso? E quem dirá que era uma tempestade? Não poderia ser o armagedom? O apocalipse?

Permanecer vivo durante um apocalipse num oceano não é fraqueza, é coragem. Não se sabe até quando isto vai durar, nem se ele vai passar ileso, mas uma coisa é certa: as cicatrizes da sua alma indicam que não se trata de tempestade em copo d´água. Sua doença é mais severa. Ele busca a cura, sabe como ela funciona, mas precisa implementar o algoritmo que trará o remédio. Tenho fé de que ele conseguirá, para presentear o mundo com sua alegria, sinceridade, e sorrisos. Ele é um sujeito, assim diriam os populares, "sangue bom"...


domingo, 4 de novembro de 2012

Tábula rasa

Tábula rasa? Eu ri daquela criança
Incrédula, em profunda ignorancia
Perdida no fantasioso mundo infantil
Onde nada escapa da simplicidade pueril

Crescem, e crescem as raizes do mal
Estudam, inúteis, o que é legal
E o legalismo adulto lhes tolhe a vida
Tudo se torna uma punição dolorida

O fim derradeiro do ser humano se aproxima
De tanto que encheu sua tábula rasa
Com lixo da morta modernidade
Definhamos com tanto saber
Tolos! Já éramos anciãos
Não se sabe viver
Matagal humano
Plantados no nada
Como ressurgir, então,
Se tudo que restou é inútil?
Onde está nossa moral, nosso conhecer?
Onde é que está a nossa humanidade livre e feliz?
A tábula rasa está cheia de sentimentos robóticos e mecânicos


Meu Julgamento



O Segundo Círculo do Inferno,
Tinha cadeira cativa para mim.
Perder-me-ia no Vale dos Ventos,
Arrebatado por um furacão sem fim.

Em vida fui levado por minhas paixões,
Em morte, o vento me levará,
Já perdi a conta das seduções.
Helena e Cleópatra me esperam por lá.

No entanto, despertei em vida minha ira,
E Minos acha, que o melhor seria,
Sofrer no Estige, e no lago me atira,
Prendendo-me no fundo, onde eu me afogaria.

Minha ira, embora contida,
Prejudicou a boa sorte,
E esta sentença seria merecida,
Se Minos não soubesse a causa de minha morte.

"Sei que traiu pessoas em tempos de paz,
 Deveria sofrer em Judeca,
 No Cocite, ao lado de Satanás,

 Mas te puno por sua causa mortis,
 É o meio mais eficaz.

 Cometeu violência contra si,
 Suicidou-se, eu sei.
 Ao Flegetonte te mandarei.
Tornar-se-a uma árvore,
E será devorado,
Ad Eternum,
Como manda a lei."

sábado, 3 de novembro de 2012

Partida - Parte 2


Eu cheguei em casa, bêbado, tomei água, uma ducha fria, e dormi. Mas dormi de verdade. Não pensei em você, não sonhei, não me revirei. Dormi bem, como não dormia há muito tempo. E finalmente, após semanas, consegui acordar cedo, novamente, para correr. Foi como um elixir. Todo meu desânimo, minha tristeza, tudo agora tinha um novo rumo. Eu precisava seguir em frente, me focar em algo, viver a vida, SER FELIZ! Eu me foquei no doutorado, na gaita, no jiu-jitsu, nas corridas, e até voltei a operar na bolsa! Em poucos meses eu tinha minha tese pronta, já podia me considerar doutor. Na gaita, estava afinadíssimo. Toda festa, reunião de amigos, me pediam para tocar. No jiu-jitsu tinha conseguido a faixa-azul, e até ganhei uns campeonatos. Consegui correr minha primeira maratona, e tinha feito um tempo excelente. Na bolsa consegui alguns lucros modestos, mas progredia a cada dia minha estratégia. E aí, sem preocupação, comecei a viajar...Recife, Buenos Aires, Paris...conheci gente pra caralho! A Lurdinha, o Pablo, a Elisa e o Gustav. Nesse ponto minha vida começou a virar loucura, alucinação. Pulei de asa delta, saltei de bungee jump, participei de orgias, bacanais...bebia pacas, usei drogas, até me prostitui em Paris para comprar uma branquinha. Fiz tatuagens pra caralho, tava todo rabiscado, tava feliz! Eu nem lembrava mais do seu nome. E foi aí que voltei para o Brasil. Faziam 2 anos que não ouvia falar de você.

Chegando aqui, quis ir num restaurante oriental que só me lembrava que eu curtia muito. Muitas lembranças haviam fugido de minha mente por efeito do abuso das drogas. Chegando lá, tudo fez sentido. Era o nosso restaurante. Na parede tinha um mural com foto de frequentadores, e lá estava nossa foto...eu estava sozinho, comecei a beber saquês, e quando dei por mim duas horas haviam passado e eu estava completamente bêbado. Caminhei, e fui me encontrar em frente a porta da sua casa. Puxei a gaita do bolso e comecei a tocar sua música, "Sex on Fire" do Kings of Leon. Sua mãe apareceu na porta e disse que você não morava mais lá. A mulher não quis me dar o endereço, mas me deu seu telefone, após muita insistência. Eu liguei.




quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Partida - Parte 1



Diferente das outras vezes, as coisas não começaram com uma briga homérica, nem com discussão. Você estava mal, disse que ia para casa, e eu, cansado de tudo, simplesmente não interferi. Disse que te acompanharia, mas você recusou. Insisti, e então brigamos. Uma simples ida para casa se tornou o fim derradeiro, e foi aí que minha aflição teve princípio.

Na primeira noite saí com um amigo, fomos num show de rock, bar...finalmente a liberdade! Você nem foi para casa. Foi beber com amigos, conversar, e até dormiu fora de casa. No dia seguinte nos falamos. Nem lembro mais o assunto, faz tanto tempo. Nos dias que se seguiram tivemos conversas amenas, chegamos a nos encontrar e até ficamos. Parecia que ia surgir algo bacana dali. A saudade apertava no peito, e eu queria ter você. Mas, não tardou e brigamos, mesmo sem estarmos juntos. Te mandei mensagens mal-criadas, você idem, e então pedi para que não ligasse mais. O primeiro dia foi triste. Estava acostumado a acordar com você me ligando, indo para o trabalho, e naquele dia você não ligou. A partir daí eu não conseguia mais dormir, a cama de casal era grande demais sem você. Naquela época estava um calor infernal no Rio, e toda noite eu passava rolando na cama, despertando a cada meia hora, olhando se tinha alguma mensagem no celular, mas nada. Foram semanas de noites insones, de buscas infrutíferas por sms´s, de me controlar para não te ligar, ou ainda, para não ir até sua casa com um buquê de flores. Eu te amava, minto, eu ainda te amo, e cada polegada do meu corpo tem saudades de você. Mas um certo dia, andando de ônibus à noite, um pouco embriagado, refletindo, olhando pela janela, que pensei no que você havia dito para mim, logo que terminamos, "eu vou seguir em frente, me entregar ao trabalho", e foi aí que tudo fez sentido.