sábado, 31 de março de 2012

Um Pobre Cavaleiro de Cristo


Ó meu Senhor, perdoa este pecador,
Perdoai pelas blasfémias, vícios e excessos.
Minha culpa é grande pai, pois te causei dor,
E ultimamente, minha vida tem sido um retrocesso.

Por caminhos obscuros andei, e por eles perdi minha fé.
Agora rumo de beco em beco, buscando o que tive em abudância.
Ultimamente pai, tenho sido mais incrédulo que Tomé!
Até gostaria de ter de volta minha ignorância.

No entanto, sigo como fiel cavaleiro.
Jamais esqueço o juramento que fiz à minha mãe;
Jurei escravidão, e o meu amor é verdadeiro.

Só te peço Senhor, ouça o meu clamor:
“Não por mim Senhor, não por mim,
mas em Teu nome toda a glória”

sexta-feira, 30 de março de 2012

Indestrutível

Sou uma máquina de guerra indestrutível. Treino e fé são as minhas armas
Mil cairão ao meu lado direito, e dez mil cairão ao meu lado esquerdo
Mas eu não serei ferido letalmente, mesmo que eu sofra algum arranhão.

Davi é meu patrono, Miguel é meu padroeiro, e o próprio Ungido é minha espada
Quem eu devo temer? Que escarneçam bastante de mim e do que penso
Estou de pé, vivo e solícito à paz e à boa vontade, ainda que para isso haja guerra

Aqui se faz, aqui se paga
Aqui não se faz, aqui se recebe
Aqui há regozijo, e aqui também se padece

A existência é dura, mas não quando se abraça o inabraçável
O decaimento do mundo é instantâneo, e obscurece a visão
Enquanto os sentidos ocultos trazem iluminação

E em honra d'O que me dá força direi: "Porquanto sem razão me armaram laços; para me perder, cavaram um fosso sem motivo. Venha sobre eles de improviso a ruína; apanhe-os a rede por eles mesmos preparada, caiam eles próprios na cova que abriram", porque eu sou uma máquina feita pelo Alto indestrutível.


quinta-feira, 29 de março de 2012

Meditações - 1


Contemplo tudo ao meu redor, e
Nada escapa ao meu olhar.
Bicho, gente, alimento,
Nada é tratado com diferença,
Em tudo considero a presença,
Desta força que move cada um de nós.

Busco a paz, busco o equilíbrio,
Perfeito entre mente e espírito,
E viajo.
Quando dou por mim, não estou mais aqui.
Vejo do alto, de fora, pessoas,
Vejo suas vidas, seus sofrimentos,
E percebendo que sou mais um, choro.

Tenho uma meta cada dia.
Planos de um suicida.
O desafio final é apenas sobreviver,
E quem ousa mais, certo é desfalecer.

Respiro um pouco, recupero o fôlego.
Percebo que hoje já vivi um pouco,
E que ainda estou muito longe do final.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Entropia da vida

A idade clama mais e mais por nossa vivacidade
Um dia a mais é como um metro diminuído entre nós e o caixão
Que pobre mortal já conseguiu fugir da derradeira fatalidade?
Que ser humano já escapou do buraco cavado no chão?

Só Aquele que morreu abraçando o mundo, mas esta foi uma feliz exceção
Regra dolorida rege o universo, traçando-nos o destino final
E a nós não cabe tristezas, nem façamos qualquer lamentação
Saibamos admirar a hora do fim, como nossa entrada num lar sem igual

Um cão vive quinze anos, e vive bem!
Corre, baba, dorme, come, e vai para o além
Quanto a nós, que diferença faz, trinta anos, cinquenta anos, ou cem?

Não importa quando a chamada para o além toca os nossos ouvidos
A Entropia da vida está ativa! Vivamos, responsáveis, os limites dos sentidos
Quando se morre bem, o tempo é apenas a agonia dos perdidos

terça-feira, 27 de março de 2012

Percepções



Estava viajando naquele ônibus,
Renato cantava em meus ouvidos,
Enquanto meu amor me entretia,
Povoando meu celular com putarias...

Olho para o lado e tomo um susto:
Não mais que um estranho é o que vejo.
Ali, do outro lado, olhando para mim!
Então, num lampejo, percebo: é o meu reflexo, que medo!

Contemplo aquele ser e ouço ele dizer:
"Sou a ponte, não tema"
Estou ficando louco? Que diabo me tenta?

O celular vibra em meu colo...
Ela requer minha atenção.
Tudo não passou de um devaneio, mera ilusão.  

segunda-feira, 26 de março de 2012

O novo Prometeu

Era uma vez um homem. Ele não tinha nome, porque não queria ser identificado pelos seus semelhantes. Dizia não ter pais, porque não queria ser rastreado, nem parentes, porque não queria que o estudassem a partir da observação dos seus co-sanguíneos. Ele gostava de liberdade. Gostava da transgressão. Gostava de tudo. Bom, de tudo, menos dos seus semelhantes, razão pela qual ele se escondia.

Seus iguais falam e julgam, e alguns dos seus iguais falam a verdade. Para ele não tinha conversa: A verdade e a mentira doíam de igual forma. Ele teve, então, uma idéia. Ele notou que sua sede de liberdade (e de libertinagem) advinha de um fogo. Um fogo ao qual quase todo mundo estava propenso. Ele desejava que este fogo controlasse tudo, ou seja, que ele pudesse fazer o que quisesse sem ser molestado por julgamentos, sejam eles justos ou injustos.

Este homem notava, também, que havia pessoas que não se sujeitavam a este fogo. Eram os maiores idiotas, segundo ele, porque não viviam a vida como ele. Ele se julgava o portador do fogo vivificante. Resolveu, então, queimar o mundo todo com o seu fogo. Tocava-o em tudo e em todos, e espalhava a sua desvairagem. Alguns se queimavam, outros não.

Até que um dia, uma grande chuva caiu sobre a terra, e todos aqueles que se deixavam queimar por aquele fogo ficaram desolados, pois aquele fogo já havia se extinguido, e com ele todo sentido da sua vida. Já não havia mais o fogo e aquele homem, que viveu parte de sua vida incendiando o mundo com as suas sandices, já não conseguia acender o fogo, pois o seu tempo já havia passado. Colocando toda a razão do seu ser naquele ígneo plasma, já não via mais razão de viver. Tentou, então, acabar com a sua própria vida, numa atitude egoísta e covarde, mas ao tentar fazê-lo, caiu do céu um raio, e quando percebeu, um ser o carregava pelo cabelo, levando-o para o alto de um monte.

Este ser o levava, segurando o homem pelos seus cabelos na mão direita. Na sua mão esquerda, trazia uma tocha que ardia com aquele mesmo fogo amado pelo homem. Chegando ao alto do monte, o ser amarrou aquele homem no monte, e quando terminou de amarrá-lo, ouviu do homem o seguinte:

-"Ei! Dá-me este fogo! Vivi minha vida devotado a este fogo, e quando o perdi, notei sofrimento que enfermo ou moribundo algum jamais sentiu. Tu, de aparência tão bela, não me negues esta piedade, que é tão bela quanto a tua forma!"

Aquele ser falou:

-"Pois eis que não te negarei. Mas não por piedade, e sim pelo designio que cumpro por ordens que me são muito superiores. Eu tocar-te-ei com este fogo iníquo, e tu, por algum tempo terás alívio. Mas logo cairá a chuva, e passarás anos em agonia. Passando este tempo, voltarei para tocar este fogo em ti, e um pouco mais de alívio sentirás. Logo, cairá a chuva e mais incômodo virá a morar em tua alma. De modo que, por séculos, ou talvez milênios, cumprirás esta pena. Entretanto, chegará a hora que nem mesmo o temporário fogo, que te queimará em intervalos, te fará mais feliz. Aí descobrirás que não cabia a ti incendiar o mundo com as tuas iniquidades, e chegará assim a tua pena final: a indiferença eterna ao teu estado. Nada te fará feliz, serás tomado pela tristeza e pelo ódio, e um dia, talvez um dia, me seja ordenado que eu te leve para junto de outros que, como tu, espalharam aquilo que não era para ser espalhado. Eles congregam nas trevas, e cada um passou pelo que vais passar, diferindo de ti apenas na forma específica que cada um usou para praticar coisas más na Terra. Toma o teu fogo, sacia-te enquanto ainda podes sentir a saciedade."

O homem então, falou:

-"Diz ao teu senhor, então, que não é preciso que ele mande a chuva. Minhas lágrimas hão de apagar o fogo."

Daquele momento em diante, tormenta sem fim caiu sobre o homem. O que acontecerá com ele depois dos ciclos quase infinitos de sofrimento? Bom, isto não sabemos. Mas disto, tiremos uma boa lição: Não amem o fogo que julgais conhecer bem. Pois ninguém conhece bem o fogo, a não ser aquele que queima eternamente nele, e não há outro destino para quem brinca com fogo, a não ser a queimadura cíclica, sem fim.

domingo, 25 de março de 2012

Nossa última morada

Mais literários que um sarau de poetas, mais silenciosos que a nave central de uma Igreja em pleno sábado de aleluia, mais cheios de mortos que quaisquer hospitais, são os cemitérios, locais sagrados onde nossos corpos um dia repousarão distantes das vicissitudes deste mundo.

Lindos epitáfios os enchem de valor literário e moral. Ainda que eventualmente um ou outro não correspondam à realidade, é um gesto lindo expressar através de uma, duas ou três frases, tudo aquilo que foi aquela pessoa que desceu ao túmulo. As palavras fazem parte da alma, e ao morrermos, podemos deixar uma verdadeira lição àqueles que ainda possuem algum tempo na face da terra.

O silêncio da nossa futura casa é também "sepulcral" (permitam-me a redundância). A não ser os nossos futuros visitantes (e eventualmente o coveiro, se for do gosto dele cantar enquanto trabalha), nossos corpos repousarão na mais absoluta paz e silêncio.

E, claro, nossos corpos "compartilharão" as presenças de muitos outros. Uma multidão de defuntos a descansar até que o destino final chegue a seus restos mortais (a ressureição para os crentes, a destruição cabal do fim do universo para ateus).

Isto é o cemitério, nossa última morada. Para quem está fora dele, parece um local macabro, mas não há como fugir. Aceitemos nossa realidade material finita e sejamos sempre bons enquanto pisarmos nesta terra, para que um belo e verdadeiro epitáfio decore dignamente a nossa tumba.

A Puta Maldita

      Após a sinuca, acompanhada do bom e velho blues, tive vontade de mijar. As ruas estavam cheias de vermes e delinquentes, eu precisava de um lugar tranquilo, calmo, escondido, e obscuro. Um tanto bêbado, desnorteado, sai cambaleando pelas ruas da praça de Itaboraí. Prostitutas se estapeavam e um viado gritava para chamar a atenção, e tudo isso passava zunindo pela minha cabeça como uma sinfonia tocada pelo próprio Satã. Que se foda toda essa merda, eu quero mijar. Cambaleei mais cem metros e achei um muro, com grades verdes...era o lugar perfeito. Abaixava o zíper quando vi uma mulher do outro lado da grade. Não levantei de volta. Ela me encarava, com seu rosto pálido, branco como glacê. Seus cabelos negros estavam desgrenhados, e pareciam sujos de terra. Ela estava com um vestido, bem colado ao corpo, e sua silhueta magra e esquelética me despertou interesse. Comecei a ter uma eração. Ela baixou o olhar e ao ver meu membro rijo, ereto, lambeu os lábios com sua língua seca e se aproximou. Eu estava em transe, imobilizado, e não esbocei reação. Ela se aproximou mais, e pude sentir o fedor que dela emanava. Vi que em sua cabeça haviam pequenas crateras onde se amontoavam vermes de toda sorte. Ela se abaixou e começou a me chupar. Extasiei. Eu viajava na puta que pariu quando comecei a perceber uma leve dor, juntamente ao prazer. Abri os olhos e olhei para baixo: ela mastigava meu pênis. O sangue escorria pela sua boca, e ela devorava com voracidade. Refestelada, ela me olhou com um ar grato, levantou-se e voltou para o breu, para o quinto dos infernos de onde havia saído, para o colo do capeta. E eu fiquei ali, a observar meu membro dilacerado, gotejando sangue.

sábado, 24 de março de 2012

Uma vida, duas vidas...

Eu poderia me suicidar,
Que de nada iria adiantar.
Estou vivendo vidas!
Que falta uma fará?

Sinto uma explosão incrível de energia,
Que irradia meu corpo...
Tornando minha vida, outrora tediosa,
Num quadro completamente louco!

O que há para mim na esquina?
Que criatura habita por lá?
Que ela me possua. Pudor aqui não há.

O novo me saúda dia-a-dia,
E eu correspondo com alegria!
Que esse trem da vida não pare, Oxalá!

sexta-feira, 23 de março de 2012

O x da questão

Era zero hora quando eu fechei os olhos e contactei o Incontigente
Antes eu queria a paz, mas ela fugia de mim como a mulher foge da serpente
Fazia-me, outrora, auto-suficiente, soberbo e pretenso ser independente


Desprendi-me da natureza humana, socraticamente buscando conhecer
A natureza inglória do homem, a incontestável miséria do ser
E então, a partir daí, para além dos meus visíveis limites transcender 

Descobri, na linguagem axiomática do universo, aquele código bom
Não ideal, mas aproximado do que preciso para encontrar a luz
E por fim, toda perfeição do Universo, perfeita canção, a reuni num tom
Que em Uníssono ao etéreo minha alma conduz

Ah, perfeita metafísica encontrei, ao desvendar o x da questão
Qual boa ascese ou abnegação, em doses homeopáticas ou em profusão
Não será capaz de guiar almas perdidas, desencontradas ou em confusão
Até o objetivo que, no meio de bárions e léptons, os homens buscam em vão?