quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Licença Poética

Tu sempre fostes minha salada com farinha
A fibra lisa do meu cadarço
O milho verde da minha galinha
O gelo do meu mormaço

Mas então viestes, desdentada
E mordestes, com as gengivas nuas
De minhas mãos, um dedo cada
Como se fossem bistecas cruas

Tu eras o arado do meu geiser
A fruta do meu mar
Mil grãos de raios laser
Plantei, para te ver brotar

E só colhi desfeitas
Furacão e desavença
E confirmadas minhas suspeitas
Apenas peço-te licença...

...poética, por favor!


terça-feira, 20 de novembro de 2012

Busum


Poucas pessoas

Viagem tranquila
Olha à direita
À esquerda
E o ônibus segue
Naqueles minutos
Enfeitiçados pela paisagem
Pela estrada
Seus destinos se perdem
E eles se permitem divagar
Sonhar?
Talvez

O poeta observa
Pega o que tem à mão
E proseia
E ele mesmo se perde
Quando dá por si
Volta a escrever
E observando as faces
Tenta imaginar
Onde estarão?

Uma moça bonita entra
A contemplo
Sinto seu perfume
E sei que dentro em pouco
Também ela
Divagará.

domingo, 18 de novembro de 2012

Wake Up Alone - Parte 2

P - A - T - R - Í - C - I - A. Eu meio que sonhava, enquanto lembrava a maravilhosa noite que tivemos. Meio grogue, abri os olhos e estranhei: você não estava lá. A cama vazia, e eu acordei sozinho. Fui ao banheiro do hotel e lá estava você, na banheira, com o corpo todo submerso, imóvel. Fiquei estático, assustado, e por instantes percebi que não sabia muito de você. Era a primeira vez que transava com alguém na mesma noite que a conhecia, e me assustei. Fui caminhando lentamente até você, e então você emergiu. Respirou fundo, me olhou e resmungou para si mesma, "Droga, oito minutos". É Patrícia, ali tive o primeiro indício de sua paixão, o mergulho. Você era mergulhadora amadora, e tinha como hobby apnéia. Você sorriu para mim, cantarolou "Wake Up Alone" e gracejou, me chamando de dorminhoco e dizendo que eu roncava. Convidou-me para ficar contigo na banheira e se aconchegou em meu peito. Acariciei seu cabelo, e contemplei seu rosto, agora já sem a maquiagem. Você, apesar dos 22 anos, parecia um bebê, e inspirava cuidados. Naquele momento jurei que iria cuidar sempre de você, fiz um juramento para mim mesmo e para os deuses que quisessem me ouvir, e segui à risca este juramento Patrícia. Olhando para seu rosto naquele momento, vi uma lágrima rolar, ou seria uma gota d´água? Ficamos ali, imóveis, você recostada em meu peito e eu te envolvendo com meus braços, até que a telefonista ligou, dizendo que o período havia acabado. Nos arrumamos rápido e saímos. Estávamos na Tijuca. Não sei por qual motivo, mas futuramente você passaria a odiar aquele hotel, e nunca mais voltamos lá. Você sempre foi assim Patrícia, você amava ou odiava sem motivos aparentes, e era firme em suas convicções. Um dia você decidiu me odiar, e me magoou bastante. Mas não durou mais que duas semanas. Mas isso é outra história. Quando saímos do hotel pegamos um táxi, você morava perto, na Tijuca mesmo. O táxi te deixou em casa e segui nele de volta para a praça Saens Peña. Peguei o metrô e fui para Cantagalo. Passei na casa de um amigo que morava ali perto e fomos para a praia, onde contei a ele sobre a louca noite, e permiti que as ondas me enfeitiçassem. Não estava muito sol, e a praia não estava cheia. Eu deitava, o sol fraco me ofuscava os olhos, e cada vez que uma nuvem o cobria eu desenhava seu rosto em minha mente e soletrava seu nome. Você, a partir daquele dia, se tornou meu mantra. Você foi minha benção e maldição Patrícia. E ainda hoje, com mais tranquilidade, medito sobre tudo o que passamos.




sábado, 17 de novembro de 2012

Agonia


Mais uma noite sem dormir.
Onde estará ela?
Não sei, decidiu sumir.
Vejo seu rosto em cada janela.

Baco sussurra em meus ouvidos:
"Vai, toma um trago".
E mergulho em mil abismos,
Buscando seu derradeiro afago.

Abro a janela,
Olho a lua.
E louco, converso com ela.

Embriagado, vou pra rua,
Caio num beco enlameado,
E alucinado, a vejo vindo nua.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Coríntios revisitada

Se não há soberba que o vença
Nem vaidade que o seduza
Porque a distância ou a doença
Fazem com que ele se reduza?

Se ele não busca o que lhe interessa
Muito menos o que lhe convém
Como não existe uma só promessa
Sobre ele ser eterna fonte de bem?

E se ele não mente
E se ele tudo crê e tudo suporta
Por que todo coração que o sente
Se quebra todo num bater de porta?

Basta um dissabor
Uma circunstância casual
Para que o tal do eterno amor
Apodreça como algo banal

Talvez aquele sábio homem
De Tarso, filho feliz
Não falasse daqueles que somem
Ao empinar, de pronto, o nariz

Declaram-no eterno à tarde
Na despedida noturna, ele acaba
Ferida cardíaca que arde
É a casa do amor, que desaba

Era ilusão quando em partes te via
Então te vi, por fim, face a face
Percebi quando sua boca sorria
Que isso não passava de um cruel disfarce

Se por acaso ver é sentir
Se mil condições te pões a invocar
Resta-me então, triste, concluir
Que nunca soubestes, ou sabes amar.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Lembranças



A pedra era tão bonita,
Que me conquistou,
Fiquei aqui.

E apesar do barro,
Da lama, que engana,
E da poeira fina,
Apaixonei-me.
Sorri.

Campos verdes,
Vaca, cavalo, boi.

Ê menino, tá ouvindo o sino?
É o padre lá na igreja,
Chamando pra rezar.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Visceral (ele e ela)

E ele lembrou-se de tudo.
Ele era só mais um.
Sofria Bullying dos colegas na escola.
Apanhava sem motivos, do pai e da mãe, em casa.
Não queria saber de macarronada aos domingos.
Nem de levar copinho d´água para a irmã,
Quando ela acordava de um pesadelo.
Era apenas mais um rebelde, só que com muita causa.
Tudo isto haveria de se converter em problema.
No âmago do seu ser, havia amor.
Surgiu então ela, uma "redneck" recém transferida para a escola.
Ele agora comportava-se, e ela sorria para ele.
Passou a levar copinhos d´água para a irmã.
Convidou-a para o almoço dominical na sua casa.
Problema nº 1: Ela não comia macarronada.
Problema  nº 2: Não havia outra coisa para comer.
Problema nº 3: Mimada, saiu correndo pela porta.
Ele a chamou, preocupado.
Declarou seu amor para ela.
Problema nº 4: Ela gargalhou.
Problema nº 5: Falou que nem em mil anos ficaria com ele.
Problema nº 6: Ela completou dizendo que vai ter um encontro com um jogador de futebol americano da escola.
Ele disse que estava tudo bem.
Completou dizendo que tinha um bolo de chocolate em sua casa na árvore.
Disse ainda que queria compensá-la pela limitação do cardápio.
Convidou-a, assim, para subir na árvore.
Problema nº 7: Ela aceitou.
Ela subiu na casa da árvore. Ela estava de saia.
Problema nº 8: Ele viu seus fundos e teve desejos.
Ela chegou lá em cima.
E não viu nada.
Mal virou as costas e levou uma pancada violenta.
Ele fez coisas inenarráveis com ela.
Após fazer coisas inenarráveis, pegou a motosserra do pai.
Fez em pedaços o corpo dela.
Seu ódio advinha de tudo que vivera.
Tirou-lhe as vísceras.
Apertou-as e, com sangue, colocou num pote.
Lavou-se com a mangueira no quintal.
Entrou com o pote em casa, dizendo à mãe:
Mãe, eis o molho de tomate para a macarronada de domingo que vem.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Liberto




Quando eu morrer,
Findo o derradeiro alento,
Se um anjo não me socorrer,
Piedoso de meu sacramento,
Eu dormirei o sono dos condenados.

O demônio me queimará ao tocar,
Meu corpo alimentará a chama infernal,
Em cima de mim sodomitas irão bailar,
E não terei direito sequer a um tribunal.

Mas enquanto estou vivo,
Quero lutar e correr.
Não me entrego ao marasmo nocivo,
Decidi que nasci para vencer!
A praga hodierna foi lançada:
"Quer ser feliz? Basta querer!"

E agora, renovado,
Sigo com meu mantra atual:
Deixe estar, viva sua vida,
Intensamente, até o final.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Rosas mortas

Num pensar esquizofrênico
Junto raiva e desprezo
Venenoso como arsênico
Faço-as sentir, da minha mão, o peso

Se dentre vós pudesseis ver
Entre a penumbra do meu ser
Veríeis, atônitos, parecer
Que elas, entre si, nada têm a ver

Mas faço com elas um bolo
Pois são farinha do mesmo saco
E assumo todo meu dolo
Porque delas, tenho asco

E se de asco eu pudesse morrer
Resistiria com todo meu ser
Pois prefiro na Terra sofrer
A, por elas, desaparecer

Uma atormenta o presente
A outra é flagelo do meu passado
Tenho por uma ressentimento ardente
Por outra, raiva pelo desprezo a mim dado

Uma leva rosa no nome
A outra, espinhos na alma
E como o faminto, consumado pela fome
Tento livrar-me delas...

... mas falta-me a calma.

domingo, 11 de novembro de 2012

Entardecer



Ouço os pássaros,
Tomo café.
Saio com amigos,
Leio Robinson Crusoé.

Deito na rede,
Toco minha gaita.
Olho a parede,
Ainda sinto sua falta.

Mas está entardecendo agora,
E o coração não dói mais.
Quanta gente bonita lá fora,

Já se passaram os temporais.
Quero sorrir, dançar e viver;
Quero, por fim, não pensar em você.