domingo, 13 de maio de 2012

Marca


Olha o braço
O arranhado
Que a menina
Fez com a unha
Vinha a noite
Todinha nua
E me amava
No meio da rua

De nihilo nihil

Eu estou ali, atrás de todos... com olhos fechados...
Poesias recitadas para poucos... o resto rumina de ouvidos cerrados...

Violinistas tocam o requiem, concentrados... Todos ouvem, admirados...
É gente para todos os lados... Hipócritas choram, desajeitados

O canapé enche a barriga... Vestidos e ternos enchem os olhos
Aí vem a minha amiga... Com uma bandeja de nachos e creme de cebolas e alhos

Silêncio! Vem aí o locutor... Com o envelope na mão
Alguns estavam em profunda dor... Até que minhas palavras alcançaram-lhes o coração:

"Deixo:


Aos que me amam, a minha memória e eterno amor;
Aos que me odeiam, a minha vitória;
Aos que me foram indiferentes e agora por isso sofrem, a minha cruel lembrança;
Aos indiferentes que não sofrem, a reciprocidade;
Aos que não me amam, nem me odeiam, e tampouco me são indiferentes, mas que se lembram com carinho de mim, meus agradecimentos;
Aos que não me conhecem e vieram apenas para comer e beber; meus desejos de que, quando estiverem em meu lugar, outros façam convosco o que fazeis comigo no dia de hoje;
Aos que vieram porque são curiosos o suficiente para virem ouvir as minhas póstumas vontades, a dúvida, a confusão, e quem sabe o desapontamento;


E de todos estes, sejam os bons transformados em meu tesouro. Estes, não deixo como herança a ninguém: levo-os comigo no coração para a eternidade e, chegada a hora de vocês, os terei perto de mim.


Assim seja feito"


No coração de cada um havia uma lágrima... todos em pranto, consternados:

Os que me amam, enchiam-se de mais amor e de saudades;
Os que me odeiam, lamentavam não poder me odiar mais;
Os que me foram indiferentes e agora por isso sofrem, ardiam nas chamas do arrependimento irremediável;
Os que me foram indiferentes e assim prosseguiram até ali, ali passaram a me amar;
O mesmo aconteceu aos que não me amavam, nem me odiavam, e tampouco me eram indiferentes;
Os penetras e interesseiros saíram correndo de vergonha;
E, por fim, os curiosos descobriram a futilidade da sua vã curiosidade;

Nada pode sair do nada, nem nada pode virar o nada... Mas pelo amor, do nada sempre pode surgir algo bom.

sábado, 12 de maio de 2012

É bicho, é bicho...

Quando te vi, tentei te abraçar.
Você se desvencilhou, evergonhada,
Dizendo, baixinho, assim:
"É bicho, é bicho,
Não pode, não pode..."
Eu ri, conquistado,
Por seu jeito inocente fui laçado.
Tentei então tocar seu rosto,
Mas você, como verdadeiro animalzinho,
Deu tapinhas em minha mão.
Me apaixonei por seu jeitinho,
E agora estou enfeitiçado,
Um louco perdidinho.
Deixe-me ser aquele bem,
Que te tirará do mal.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Energúmeno


Se em um monstro verde eu pudesse me transformar

Ainda assim não seria possível ver claramente a minha ira
Se, na antropomórfica visão dos deuses gregos, um raio sob a terra se espalhar
Não ferirá todos os meus algozes, a quem quero que um raio fira

Aqui é necessário o entendimento:
Se a reciprocidade da benevolência não se desenvolve
O energúmeno em mim torna-se um essencial elemento
Que me toma, e à minha bondade envolve

Estou com todos, a cada dia
Até o fim dos meus tempos
Observo e ajo como se todos fossem meus irmãos

Estendo a mão sem discriminar estranhos ou família
Até que me façam parar os ventos
Ou até que já sejam inúteis as minhas mãos

terça-feira, 8 de maio de 2012

Succubus


Jeito meigo, voz doce e angelical,
De forma alguma representava o mal.
Foi suave e me enfeitiçou,
Com seu beijo me deixou em torpor.

Quando se despiu, não pude acreditar:
"Que corpo esplêndido!"
Era só o que eu podia pensar.
Me convidou, estendendo o véu do amor.

Abriu as pernas, não resisti...
Chupei seu fruto, quente e molhado, oferecido a mim.
Ela se pôs a urrar como animal,

E em minha carne, cravar sua garra infernal!
Tirou pedaço, mas algo mais ela levou,
A minha alma. Sou um escravo a seu dispor.

domingo, 6 de maio de 2012

Vórtex


Caio no Vórtex desequilibrante, do extremo irreal surrealista
Vejo pensamentos explodidos, cujos cacos espalham-se em cada rincão
Em um minuto, mudo meu peso em toneladas, sem deixar pista
O 'talvez' vira 'nunca', o 'de vez em quando' vira 'não'

Parece um cone de luz: Relativisticamente louco
Preconceitos devoram a carne do incauto como larvas famintas
Toda a desgraça no Vórtex é pouco
A luz da miséria cresce em proporções infinitas

Caio no estranho fenômeno quase à velocidade da luz
Vejo meus sentimentos em metamorfose
Percebo meus conceitos evoluírem

Até seu final, sua hipergravidade me conduz
Doenças são curadas, fantasmas tomam posse
Até meus átomos, super esmagados e muito mudados, decaírem.


sábado, 5 de maio de 2012

Anjo



Tenha certeza, ouvindo sua canção,
Não duvido de que vale a pena esperar.
Você me dá a necessária distração,
Tenho fé na mudança que tudo resolverá.

Agracie-me, minha musa,
Com aquela segunda chance.
Gastarei todo meu tempo, sem dúvida,
Para que esta graça eu alcance.

Ouço sua canção ao deitar,
E é sua voz que ouço quando acordo.
Em meu peito um altar a ti devoto.

Estou agora nos braços de um anjo;
Deus ouviu meu clamor...
Te peço, não chegue tarde, por favor.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Seja feliz

Há muito eu desisti, mas só agora levantei a bandeira branca
Talvez por um leve desejo de tudo sofrer uma reviravolta
Mas não há porque esperar, a realidade é pura e franca
Não faz sentido esperar, de quem nunca esteve aqui, a sua volta

Então, minha cara, seja feliz com quem te apetece
Quebrei o ídolo que fiz à tua imagem e semelhança
E retirei os cacos do meu altar: fato da vida, acontece!
Onde não há reciprocidade, não pode haver esperança

Não há remorso, nem rancor, apenas uma vida que segue
Não mais à tua sombra, mas livre para voar
Querendo uma felicidade como a tua lograr

Deitado na minha cama, fecho os olhos e faço uma prece
Pedindo ao Divino não que me arrume alguém para amar
Mas que me transforme em alguém digno de se admirar 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Diga xis



Agora podemos rir, o pior já passou.
Apesar dos imprevistos e contratempos, estou aqui.
Você lembra de como tudo começou?
Não imaginei que chegaria a ti.

Encontrei-me para me perder em seus cachinhos,
E fui guardando para ti tantos carinhos,
Que no primeiro momento que ficamos sozinhos,
Ensaiamos nossos primeiros beijinhos.

O tempo praticamente voou!
E entre pedaços de pizza e uma noite clara,
Você me contava histórias da Gambiarra.

É uma pena que tudo acabou,
Mas você tem meu perfume e marcas para mostrar,
E eu tenho no peito o sincero desejo de voltar.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Ventos do Norte




Os ventos do norte traziam, afiados como uma navalha, o frio intenso
E minha pele era rasgada pelas lâminas de ar em baixa temperatura
A solidão causava-me um ardor imenso
Confundiam-se, ali, o desespero e a amargura

Mas tu chegastes e, com ternura tratastes minhas feridas
Por fim tomastes minhas mãos e me beijastes os lábios
Dama da pele branca, tal qual a neve que caía nas ruas
Meu remédio foi teu carinho, teus conselhos incrivelmente sábios

Tudo aquilo era tão novo, e ao mesmo tempo tão antigo
As luzes fascinavam-me em dobro, ao caminhar contigo de mãos dadas
Minhas cicatrizes eram medalhas de bravura, o frio era agora meu amigo
E o enigma do destino, longe de ser um desatino, parecia apenas um conto de fadas

Mas não, ali tudo era real, fascínios verdadeiros
Desde o floco de neve que, por vezes me cegava
Até o exotismo das ruas, dos pedintes, dos luzeiros
Da dama de pele alva que com seus beijos me amava