sábado, 14 de abril de 2012

Eu reparei, no seu olhar...



Me recebeu com um abraço forte,
Retribui com um cafuné
Seu perfume, seu sorriso, seu toque...
Para me beijar, ficou na ponta do pé.

Seu gargalhar me contagiava,
E as horas voaram como borboletas!
E enquanto sua história ela contava,
Bem passada serviam a chuleta.

Ouvi atentamente cada palavra,
Exerci meu hobby, a psicologia,
E tracei seu perfil, sua dicotomia.

Ela parou um momento, ficou a pensar;
A envolvi com meus braços, ela retribuiu com prazeria,
E riu inocentemente com alegria.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Onde é que tu estás? (Mutatis Mutandis em si)

Onde é que tu estás?

Quando eu desperto e não consigo enchergar-te ao meu lado?
Quando em vão desenterro alegorias e símbolos para te explicar a mim mesmo?
Quando em meu próprio altar sacrifico sinapses, desejando tua volta?
Quando eu percebo que não tenho teu afago, nem posso sentir tua pele com o meu toque?

Onde é que tu estás?

Quando me perguntam sobre o momento em que eu vou te encontrar?
Quando me indagam sobre quando contigo irei casar?
Quando eu fantasio estar no lugar daquele que contigo está?
Quando eu sonho contigo e com o paraíso, mas nem um, nem outro está onde deveria estar?

Eis uma questão delicadíssima. Eu estendi minha mão para ti, Lia, mas tu não a seguraste. Quantas perguntas quiméricas e quantos devaneios malignos tomaram conta de mim quando eu atribuí a ti qualidades virtuais, que eu não sabia se existiam! Mas isto tudo é porque eu não sei mais quem tu és. Eu não sei mais aonde tu estás. Os séculos deram-te outra forma. E eu passei tanto tempo a te imaginar. Passei tanto tempo desenvolvendo uma teoria de ti. Tornei-me o maior e mais proeminente teórico de ti, mas quando fui praticar-te a ti, percebi que és pura potência, sem ato algum. E assim, talvez seja possível que tu não tenhas mudado de forma meramente, como um raro acidente: talvez tu seja a própria mudança, a antropomorfização cabal do mutável: mutatis mutandis em si.

Portanto, como posso eu ter algo contigo, amada Lia, a quem devotei anos de minha vida sem receber de volta um único suspiro? Esconjurado está aquele que tomar esta pergunta como um lamento: não se lamenta por algo que é eterna mudança, pois se assim eu procedo, o lamento se torna inútil e sem razão de ser à medida em que aquilo que provocou o lamento já não existe mais, tornando até mesmo a lembrança daquele não-mais-existente ser algo completamente ilógico. É como se eu lamentasse a morte do hipopótamo cinza de listras cor de laranja.

Ah, Lia... Deve ser ruim para ti perceber que tu, Mutatis Mutandis em si, é incapaz de admirar a rocha firme do ato. Quando consegues fazê-lo, já não és mais aquela Lia, e sim outra Lia, que contempla e logo se aniquila. E é aí que, percebendo que és um camaleãozinho difícil de se enxergar, respondo a minha pergunta inicial. "Onde é que tu estás?" Em nenhum lugar, já que és potência pura, e onde estás agora, em um microsegundo depois já é lugar de um outro ser.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Telefonema



Ontem estive cara a cara com minha morte.
Quis ligar para alguém e dar o último adeus;
Não sei se foi azar ou foi sorte:
A pessoa não me atendeu.

Tanto amor quando em ódio convertido,
É capaz de cavar um imenso abismo.
Somente para punir o culpado libertino,
O traído se lança numa onda de sadismo.

Agora me pergunto: será que vale a pena?
O certo da vida é que o amor não dura,
Então por que viver em monogâmica ditadura?

Ouça meu amor, preste atenção.
Se hoje por acaso te estendo a mão,
É porque te quero bem, não seu coração.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Gunther, o guerreiro da razão, parte 2: O velho ancião

Já havia dias que Gunther saíra de Steinborn. Os seus, que permaneceram no antigo vilarejo, indagavam-se a cada dia onde estaria aquele guerreiro que, silencioso, vagava rumo a um lugar que só ele sabia onde era. Ou talvez nem ele...


Raiou a noite na região transilvana. Gunther, no silêncio mergulhado, matou um porco selvagem e, assou-o numa fogueira que, com muito esmero, preparou. Ao cortar um farto pedaço do suíno e fez uma prece mentalmente, fechando os olhos, num costume que era estranho ao seu povo. Qualquer um haveria de achar extremamente esquisito aquela cena, um viking com comportamento religioso diferente daquele que Thor ou Odin exigia.


De repente, ouviu Gunther o som de galhos partindo-se, como se alguém neles pisasse. Colocou a carne que comia em cima de uma folha, e empunhou a sua espada. Daquela terra escura pela ausência do sol, saiu um homem, velho, vestido com roupas surradas, de barba e cabelo grandes e brancos. Acenou com as mãos, demonstrando inocência e boas intenções. O viking embainhou a espada, e acenou ao velho, mostrando o porco assado e o oferecendo.


Mais uma vez Gunther desafiara toda a lógica. Um viking de verdade teria assassinado o velho sem piedade. Mas a piedade tomou conta dele de tal forma, que não só poupou o ancião da morte, como ofereceu-lhe comida. O velho, então, disse a ele, na sua própria língua germânica:


- Tu, que fazes na floresta? És peregrino?


Gunther acenou com a cabeça que sim.


-"Não falas? Perdeste a língua?", completou o velho.


Gunther acenou com a cabeça que não, e com gestos e gravuras desenhadas no chão com um graveto, deu a entender que estava proibido de falar até chegar ao seu destino.


-"És um homem de fé, certamente. Vamos comer, porque a noite avança e não podemos dormir de barriga vazia", disse o velho ancião, que tomou a carne, deu graças num idioma distinto do que usava para falar com Gunther, e neste exato momento, algo de extremamente sagrado emanou do ancião. Na hora, Gunther caiu com o rosto por terra, abriu seu frasco de tinta, tomou a pena e escreveu num pedaço de pele de carneiro:


"Gloria ad Pater!"

Quando iria mostrar ao ancião, ele desapareceu. Gunther correu para os lados, buscando rastros dele, e nada. Nenhuma pegada, nenhum sinal. Apenas o pedaço de carne por ele abençoado estava ali. Gunther tomou-o e comeu. Abrindo depois o seu livro, leu ali algo que o fez guardar aquele estranho acontecimento em seu coração. Deitou sua cabeça e, fortalecido pela refeição abençoada, esperou o raiar do dia para seguir na sua peregrinação.








terça-feira, 10 de abril de 2012

Infértil


Venha cá meu amor...
É o que suplica meu peito.
Tento refrear a dor,
Ser feliz já não é um direito.

Meu jardim, antes florido,
Agora já não tem nenhuma flor.
O meu peito, aperta sofrido,
Sente falta da jasmim, do seu odor.

Talvez seja o tempo,
De seguir o conselho, que a ela um dia dei:
Apague tudo. Esqueça. Viva uma nova lei.

De tempos em tempos, é preciso mudar.
Formatar a máquina, redescobrir o "amar";
Só se pode ser feliz se você tentar.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Gunther, o guerreiro da razão, parte 1: O início

Saindo do velho vilarejo de Steinborn, um guerreiro incomum partia em peregrinação. Os seus caçoavam, o humilhavam, porque de uns tempos para cá, ele havia mudado. Gunther era um guerreiro obstinado, que havia conquistado muitas terras em além-mar para o rei Rothgard, fora general de várias hordas, os vikings batiam no peito e gritavam palavras de ordem só de ouvir o nome dele. Mas ele havia mudado.

Vestia sua armadura, mas seu capacete havia sido jogado fora. Tomou uma capa para proteger-se do frio (era inverno e nevava), e a capa cobria também a sua cabeça. Levava uma espada embainhada, cuja bainha estava pendurada em suas costas, e na sua mão esquerda, um velho livro. Um volume enorme, o qual ele se recusava a mostrar a quem pedisse.

Todos olhavam para ele, mas ele havia feito uma promessa a si mesmo: não diria uma só palavra enquanto não chegasse no seu ponto final. Mas antes que ele fosse embora, todos perguntaram para aonde ele iria, e tudo que ele fazia era mostrar um pergaminho com umas letras estranhas, que ninguém podia compreender. "Lá vai o louco, outrora grande guerreiro, Gunther!", dizia o ancião chefe de seu vilarejo, impotente no desejo de fazê-lo ficar.

Gunther entrou então pelas florestas, caminhando como andarilho rumo ao sul, rumo a um local desconhecido para ele. Não, não tão desconhecido. Ele sabia em seu coração para onde iria, só nunca havia ido lá. Com o voto de silêncio, pretendia com isso não ser desviado do caminho por línguas ardilosas e cheias de malícia. Por isto, levava consigo também uma pena, um pequeno vasinho de tinta vermelha extraída de ervas, e um rolo de pele de carneiro, e dedicaria, ao que ousasse interrogá-lo, apenas uma frase escrita. Estranho? Talvez. Mas algo muito intenso queimava no peito de Gunther, e ele está disposto a tudo para chegar aonde quer e precisa estar.






terça-feira, 3 de abril de 2012

O Homem-Lobo



Corro cada kilômetro buscando superação;
Tracei objetivos que não posso deixar para trás.
A vida clama meu sangue sem moderação.
O tempo que perco, não recupero mais.

O lobo que habita em mim é o que me alimenta.
Sua força vital sustenta meu ser diariamente.
Por quê negar o que me sustenta?
Entregue-se ao seu animal interior plenamente!

Não fuja de sua natureza, homem.
Experimente seu lado animal!
Permita-se estar além da existência banal.

Melhor se tornar verdadeiro lobo-homem,
Do que se esconder em pele de ovelha,
E se juntar ao rebanho em volta da ceia.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Memórias Póstumas de uma Barbie Girl

Carta encontrada ao lado do leito de Carolina, antes que ela entrasse em coma.

"A vida não é fácil. Entretanto, quando nós buscamos a nossa completude nas coisas erradas, ela não é apenas difícil, mas insuportável. Essa é a minha história: Carolina, 29 anos. Desde os 17, por influência de amiguinhas de escola, entreguei-me à vaidade e à futilidade típicas das meninas desta época. Adorava ver as fofocas nos jornais, os meninos bonitos da minha sala de aula e das outras (os mais velhos). Isto me levava a vaidades e ao vício de comprar roupas, cosméticos e sapatos sem nenhum auto-controle.

Esqueci-me como era ser humano. Às vezes eu pensava algumas frases prontas do tipo "a sua inveja é do tamanho do meu sucesso", "se há pedras no meu caminho, eu as colherei e com elas farei meu castelo", "contra olho gordo, colírio diet", e isto era o máximo que minha mente obtusa podia alcançar. Como consequência desta patetice, eu não gostava de me misturar com gente que não fosse "chique" que nem eu. Também amava os cantores "gatinhos" do momento, que cantavam coisas fofinhas em letras pateticamente escritas para colher dinheiro de fãs histéricas incautas e fúteis. E como eles enriqueceram! E desapareceram tão rápido quanto enriqueceram...

Se eu ficava triste, eu comia uma barra de chocolate, ou um potinho de sorvete. Por vezes, minhas tristezas e angústias me custavam uma blusinha, um shortinho, uma calça jeans ou um perfume "do momento". A euforia vinha por um instante, e logo sumia. Eu não entendia bem, achava que a felicidade era uma coisa que vai e vem rapidamente, não conseguia enxergar além disso. Eu trabalhava, pois estudei na universidade particular que meu papai pagou para mim com tanta boa vontade e me qualifiquei. Algumas de minhas amigas, tão fúteis quanto eu, conseguiam estudar nas universidades públicas, mas eu, naquele instante, achava que a universidade pública era coisa de pobre metido a inteligente, e quis estudar com gente da minha estirpe. Minhas amigas sabiam conciliar o que para mim era uma tragédia (estudar com a ralé), mas na minha cabeça aquilo não entrava.

Nos finais de semana, eu gostava de sair. Como nem todo lugar tocava as músicas dos meus gatinhos cantores, eu  me contentava com o ritmo do gueto. Sabe como é, não é? "É som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado", dizia uma daquelas canções (se é que eu posso, agora, chamar aquilo de "canção"). Então eu saía para dançar. Mas, ficar perto daquela gente? Não, preferia ficar nos locais separados para quem quer curtir com conforto, boa comida e boas bebidas.

Minha vida seguia neste ritmo até alguns dias atrás, quando, na faculdade, desmaiei, dada minha pressão baixa (herança de minha mãe). Há três dias estou em observação em meu quarto, que foi adaptado para que eu pudesse estar internada aqui mesmo em minha casa. Os médicos estão fazendo exames para diagnosticar o que tenho, mas por enquanto nada sei. Há duas horas atrás, um homem apareceu na janela de meu quarto, do lado de fora de minha casa, e me disse: "Menininha bonitinha, que parece uma boneca: O que houve? Por que você está tão abatida?". Expliquei-lhe o que havia acontecido. Ele então disse: "Sei. Problemas de saúde podem ser um fardo pesado para se carregar quando não se sabe quem é, e para que se está neste mundo. E você, sabe quem você é, e para que vive?"

Naquele momento, um silêncio profundo tomou conta daquela situação. Pensei em tudo aquilo que eu gostava de fazer, e vi uma futilidade tão grande, que uma lágrima escorreu dos meus olhos. Eu, que pensava que fazia grandes favores para mim mesma, como me cuidar, comprar coisas bonitas, comprar coisas legais, fomentar uma linda imagem diante da sociedade. Esqueci-me de enriquecer a mim mesma, a minha alma. Eu era tão vazia, que bastou que uma pessoa nobre e virtuosa me fizesse uma simples pergunta, para que eu me perdesse no enorme vácuo da minha mente, e do meu espírito. Ele então pediu-me que eu escrevesse uma carta sobre toda minha vida, e esta folha de papel em que você, leitor desconhecido, lê agora, é a missiva prometida. O homem disse que depois voltaria para buscá-la, e que iria, compreendendo-a, me ajudar a ser uma pessoa melhor, assim que eu estiver saudável novamente.

Termino esta carta desejando que eu possa ter mais vida para refazer tudo. Eu precisei que uma pessoa desconhecida me abrisse os olhos para os meus vícios de "barbie girl", e me fizesse atentar para aquilo que realmente tem valor neste mundo: o enobrecimento e a virtude, aquilo que eu não entendia bem há pouco tempo atrás, que eu achava que era baboseira de filósofos e desocupados. Que Deus me ajude!

Carolina Vieira"

domingo, 1 de abril de 2012

Intervalo



A orla é meu habitat.
Um blues em meus ouvidos,
Cair da tarde,
Só não é melhor que gemidos.

Quando na aletoriedade,
Toca a voz dela,
Me rendo. Canto o básico.
E todas minhas dores se vão.

Este é meu intervalo.
Um tempo para descobrir,
Quem sou de verdade.

Tempo para abrir a mente,
Ser eu mesmo, sem fingir,
Sem tentar ser feliz.

Iconóstase (perpétua contemplação)

Olha, filho fiel, cada folha balançada ao vento.

Olha, ó filho fidelíssimo, cada pessoa que diante de ti passa. Veja como andam, uns apressados, outros tão suavemente devagar. Vê, filhinho, como são as coisas ao teu redor, contempla cada uma com carinho e dedicação. Faz como fala teu pai, que te fala com conhecimento de causa.

Escuta cada canção cantada nas ruas, cada voz que se levanta no deserto, cada veículo que ruge como um leão faminto nos engarrafamentos diários. Vê a água sendo cortada pela barca que te carrega, graciosa, pelo mar tranquilo. Guarda na tua mente cada imagem que vês. Se máquinas podem gravar em sua artificial memória milhões de fotos, por qual motivo tu não o poderias, filho meu, se fostes desenhado com tanto capricho, e dotado de uma máquina natural tão mais poderosa que as artificiais?

Guarda no teu peito cada amor que sentistes. Imprime no teu coração as impressões digitais da moças a quem abraçastes, beijastes, amastes, fizestes sorrir, correstes, brincastes... Desenha na tua alma a imagem de cada uma das graciosas donzelas, nutre por elas um eterno e inocente saudosismo...

Cada uma dessas coisas que te peço para guardar, meu amado e querido filho, é um ícone da tua vida. Guarda-as como teu bom pai te pede. Forma a tua iconóstase, e consagra-a. Pois cada ícone é único, tu jamais hás de ter ícones repetidos. Perceba, então, a graciosidade, a unicidade e o valor de cada um dos teus ícones. Apresenta ao Pantocrator¹, quando partires para a tua dormição, a tua iconóstase, dizendo-lhe  com todo fervor: "Kyrie, eleison!"²






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1: O que tudo rege.
2: Senhor, tende piedade de nós.