domingo, 22 de abril de 2012

Salve Jorge!



Grande Santo Guerreiro,
Na Capadócia és o primeiro,
No sincretismo responde,
Como Ogum, o ferreiro.

Salve Jorge, me abençôa ô Santo,
Com sua armadura poderosa,
Dádiva de Deus, és teu manto!
Permita-me Jorge esta glória!

Tua lança Santíssimo,
Permita-me manusear,
Para que os dragões da vida eu possa matar!

Me dê sua força Jorge!
Sou da tua companhia, nobre cavaleiro;
Mato em teu nome, Salve Guerreiro!

Insegurança indômita

Um dia me fizestes chorar como nunca imaginei
Tu sabes o que é acordar e ir dormir com o coração apertado?
Ao saber de tudo sem que tu soubesses que o sei
Vi-me só, abandonado e totalmente desolado

E agora eu vejo que nada mudou, eu sinto muito
Tu, com tua inocência dissimulada quase me enganastes
Como crer que tudo será como aquela noite, naquele minuto
Em que eu pensei que me amavas como nunca a ninguém amastes?

Eu soube, soube de tudo novamente, um nome me falou
Pegarei do livro da minha vida a página em que estás, e a arrancarei
Enchendo-a de tabaco, fumá-te-ei e cuspirei a tua fumaça

E depois jogarei a tua bituca fora, como a mim tua mão um dia jogou
E aí tudo estará terminado. Nenhum recurso meu, por ti gastarei
Pereça na aliança que te mantém presa sob ameaça

sábado, 21 de abril de 2012

Beijas na boca?



Eram 4h da manhã quando chegamos em Sodoma,
As moças, cansadas, seduziam os transeuntes;
Meu companheiro avistou sua Madona,
E eu decidi procurar amiúdes.

A Madona naquele dia ficou de frescura,
Decidiu então subir com uma loira monumental.
Em minha vã procura fiquei na secura,
Até que uma coroa na casa dos 50 fez subir o moral.

Perguntei a ela: "Beijas na boca?"
Ela sorriu e respondeu sem rebeldia:
"Só se for boa a companhia."

Inquiri quanto custaria tal alegria,
Ela respondeu: "Uma onça pintada."
E naquela noite, rolou uma "pentada".


sexta-feira, 20 de abril de 2012

Darquimeu


Darquimeu, filho meu: Seja benigno comigo!
E a partir de mim, seja contigo também
Por que escolhes o mau como teu guia
Se teu coração está inundado no bem?

Foge desta incoerência, e segura a minha mão!

Tu és demasiado bom para servir fielmente ao mal
Tu te envenenas a ti mesmo ao fugir da tua natureza
Enxerga a virtude que pode te transformar em luz e sal
Afasta as trevas que te retiram a beleza

Cumpre a tua tarefa e foge das máscaras que não te simbolizam!

Filho meu, Darquimeu, dá-me o teu amor
Ao invés de entregá-lo cegamente ao meu inimigo
Por que me dás as costas sendo este mau ator
E não vem a mim, de braços abertos, como filho e amigo?

Bota os teus pés no reto caminho e contempla o real

Mas enquanto não vens, cravo em teu peito um prego
E te desorientarei tal qual um órfão novilho
Fecho-te os olhos para que sejas um homem cego
Até que segures nas mãos do meu amado Filho.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Queridos amigos



Queridos amigos:

A vida...
Olho em minha volta.
Um espelho na parede,
Uma fotografia no chão.
Preto e branco.
Pessoas em minha volta,
Máscaras...
Uma adorna minha face.
Um sorriso, uma lágrima,
Emaranhados.
Em meu bolso um documento:
RG.
Não tem foto, nem nome;
Tem uma lembrança, uma sombra.
Tento alcançar o horizonte,
Mas está escuro demais.
Minha visão está turva.
Quem é você?
Alguém te ama?
Você é capaz de amar?
E sem saber responder,
Ele se retira...
Para onde? Não sei.
Até quando? Tão pouco...
Para trás deixa um bilhete:
Adeus.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A quem chamarás

A tua cara fechada de arrogância me consome
À medida que rio impiedosamente da tua miséria
Ridículo, julgas-te acima da fartura e da fome
Quando não és mais que uma caveira funérea.

Carne, cartilagem, notocorda, o ser primordial
Mas de onde herdou-se o primor?
Do nada? Do vazio da tua mente anti-cerebral?
Só se for, já que onde não há cérebro, não há temor.


Diz-me onde está a tua matéria quando tu recebes o golpe entrópico final!
Diz-me onde se encontra a tua prepotência e profanidade agora!
Tua insignificância é o lugar onde, para sempre, tu ficarás!

Põe o azeite na tua lâmpada, e ilumina a tua treva descomunal!
Ou continuarás com tua blasfêmia nesta hora?
Tua humanidade só voltará quando descobrires a quem chamarás.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Nu Canteiro de Obras


Nuya Panaka caminhava pelas ruas de São Paulo, próximo à Liberdade, apenas para espairecer. Estava entediada, a faculdade estava em greve, e não havia muito a fazer em casa. Sentia tesão, sentia tédio, sentia raiva, sentia amor. Aquele turbilhão de sentimentos explodiam em si, e convergiam para um estado latente de desespero. Nuya adorava caminhar, e naquele dia nublado, com o céu cinzento, aquela atividade proporcionava a ela paz de espírito.

Nuya caminhava pela calçada do canteiro de obras abandonado da velha fábrica têxtil, que seria demolida para construção de um moderno shopping. A obra havia sido embargada, talvez por uma propina que não tenha chegado nas mãos certas, de algum fiscal qualquer. A obra estava abandonado haviam 8 anos, e nesta altura já havia se entrelaçado ao meio, passando a fazer parte, naturalmente, da paisagem local. Tapumes metálicos contornavam a obra, muito pixados, em algumas partes artisticamente, em outras vandalisticamente. Em certa altura havia uma abertura na junção entre as duas placas de tapumes, com tamanho suficiente para passar uma pessoa. Aquela abertura era novidade, Nuya estava acostumada a tomar aquele caminho e nunca havia visto aquilo. Curiosa, por natureza, ousou olhar o interior, e num suspiro...

TUM!

Uma paulada forte havia sido dada em sua cabeça, sem tempo de reagir, como num suspiro. Nuya caiu no chão, entregue, sem sentidos por alguns segundos. Quando acordou estava nos braços de um homem negro, da sua altura, de cabelo raspado e barba por fazer. O homem beijava e chupava seu pescoço, causando dor e prazer, repulsa e tesão. Nuya tentava lutar, mas era frágil, e nos braços daquele homem forte, completamente indefesa. Ele a arrastou para dentro do prédio semi-construído, Nuya gritava, e ele abafava os gritos com sua mão. Chegando lá dentro tomou de um pedaço de arame farpado e amarrou as mãos dela para trás, e a calou amarrando um trapo em sua boca, arrancado de suas próprias vestes. Do extremos da parede puxou dois fios de arame farpado que já estavam ali presos para este fim, amarrando suas pernas e deixando-as arreganhadas. Nuya estava entregue àquele homem, que já babava de tanto tesão e prazer. Ela de relance olhou para a calça daquele homem e notou o volume que já não mais cabia ali. O homem com suas mãos rudes excitou Nuya num ponto onde ela não conseguia resistir, fazendo jorrar de seu sexo aquele saboroso mel, quente e doce. Avançou com a boca e sorveu até a última gota, como um bicho faminto. Nuya gemeu, e aquele som ecoou pelo recinto, dando mais prazer ao malévolo. Ele estava no ápice, não conseguiria mais se conter. Tirou a calça e seu membro se libertou. Nuya olhava vidrada, num misto de dor e desejo. Ele foi para cima da pequena e a penetrou com força e vontade. Ela gritou no começo, mas em seguida gemeu de prazer. A dor causada pelo arame farpado lacerando sua carne, o prazer gerado por aquele membro que a penetrava sem rodeios, e a sombria felicidade de se ver tão desejada por aquele homem...ela não aguentou, gozou freneticamente, sem conter os gemidos. O homem gritou "Ah minha branquinha...", e tirou rápido o membro, dirigindo-o para seu rosto. Jorrou o líquido da vida na face de sua cativa, dando a ela mais prazer. Ela recebeu de bom grado aquele líquido quente e viscoso, e tentava alcançar com a língua o que escorria do rosto. O homem deu uma gargalhada alta, colocou a calça e saiu, deixando Nuya amarrada. Voltou vestido com terno branco e um chapéu, fumando cigarro. Trazia dois cães enormes, raivosos e famintos. Soltou-os dizendo: O banquete está servido! E saiu, gargalhando como um demônio.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Julieta em chamas


Desde os muros da cidade eu vinha correndo depressa
Já não podia mais esperar para ver a minha princesa
O ourives e o alfaiate entenderam minha pressa
Fui atrás da minha dama como o leão corre atrás da presa

Os sinos tocavam na igreja, e a procissão dobrava a esquina
Para meu espanto, a partir dali todos fitavam-me com pesar
Uns homens corriam a minha frente, como se fossem até minha menina
E uma espessa fumaça, cheirando à desgraça, perturbava-me o respirar

Vi uma luz intensa, e senti um calor que irradiava-se bruto e violento
Era a casa de minha vida, que ardia em chamas impiedosas
Esqueci-me de minha própria vida e quis ali entrar, sendo interrompido meu intento
Pelas mãos de um douto que dizia: "Acabou! vai, e compra uma coroa de rosas"

E vi outra alma caridosa, que ali entrara para tentar a minha querida salvar
Saiu carregando um corpo negro, dilacerado pelo fogo, consumido até o fim
Uma lágrima caiu de meu rosto, e um segundo depois pôs-se a evaporar
Entrei, desvairado, no fogo, querendo todas as labaredas queimando em mim

domingo, 15 de abril de 2012

A Flor de Liz




Dizem que os opostos se atraem, balela.
Em nosso caso, a semelhança contribuiu,
A curiosidade me levou a ela,
E ela, sem pestanejar, retribuiu.

Ela me apresentou um belo jardim,
Nele, conheci a flor de liz,
E meu canteiro, que só conhecia uma certa jasmim,
Ficou encantado, agora poderia ser feliz.

No entanto, algo inesperado aconteceu:
Como de praxe, o príncipe virou plebeu.
E após um acontecimento, a flor de liz me esqueceu.

Tentei gritar, ela não quis escutar.
Se assustou com nossas divergências, correu para seu lar,
E agora estou aqui, sem chão, sem mar, sem ar.

Gunther, o guerreiro da razão, parte 3: O menino pobre de Bizâncio

Após andar entre montanhas e florestas, Gunther caminhava, mais alegre do que nunca, em busca do seu ponto final. Chegando num estreito, negociou com um marinheiro a sua travessia, oferecendo duas moedas de ouro que achara no meio da floresta. Não era muito seguro andar por entre as árvores, e nem era raro que houvesse assaltos e roubos. Possivelmente, essas duas moedas foram involuntariamente esquecidas pelos meliantes, que deixaram-nas cair na hora tão "apavorante" do ato ilícito.

Era ela, a velha Bizâncio dos Otomanos. A casa de Sofia lhe acenava, mas ali não era o ponto final do nosso aventureiro nórdico. Ele passava pela cidade, de modo que o caminho que tomava daria na belíssima jóia do Oriente, a bela Damasco da Síria. Entretanto, neste Caminho Gunther viu coisas terríveis.

Viu os otomanos  perseguirem uma moça pelo simples fato de ela usar no pescoço um ornamento em que duas pequenas hastes eram ortogonalmente transpostas. Imediatamente desembainhou a espada e foi ter com os vis agressores. Matou dois que estavam na iminência de tirar a vida da pobre jovem, e lhe facilitou a fuga. A jovem lhe sorriu e disse umas palavras que, lamentavelmente, não puderam ser compreendidas por Gunther, embora tivessem provocado também um sorriso na boca do nosso amigo guerreiro, que infelizmente teve de interromper o momento de ternura para escapar das mãos assassinas dos otomanos.

Tendo provocado a ira dos inimigos, Gunther, vendo-se em ampla desvantagem numérica, correu. Atravessou boa parte da cidade tendo seus contendores atrás dele,  a não muitos metros de distância. Até que, passando por um bairro pacífico, foi puxado para dentro de uma casa por uma mão misteriosa. Virando-se disposto a decepar a pessoa que o havia puxado, interrompeu a trajetória na hora quando percebeu que se tratava de um menino. Um menino de olhar extremamente imponente e pacífico ao mesmo tempo. Surpreendentemente, o menino falava o idioma de Gunther, e disse-lhes as seguintes palavras:

-Decerto és do norte. Aprendi teu idioma com um mercador que por aqui passou, há muito tempo. Vem, esconde-te aqui, os soldados irão embora e tu depois poderás seguir tua viagem. Mas diga-me: tens aí algo de comer? tenho fome, e tudo que tenho é este vasinho com água. Que me dizes? repartes comigo tua comida, e eu reparto contigo a minha água!

Com um sorriso, Gunther tirou de uma "trouxinha" feita de pano metade de um peixinho assado que economizara da noite passada. Deu ao menino, indicando com as mãos que não queria comer daquele peixe, que o jovenzinho poderia comê-lo todo. O jovem, por sua vez, disse:

-Homem de bom coração! Agora entendo porque protegestes minha amiga não muito longe daqui. Vejo que és diferente do resto do teu povo, o livro que carregas contigo é outro sinal claro. Toma, bebe desta água e vai! Os soldados já foram embora.

Gunther intrigou-se um pouco sobre como aquele menino poderia saber de quando ajudou a pobre moça a fugir, mas mesmo assim bebeu a água, e percebeu que em sua boca sentia-se um sabor, um sabor de uva. Espantou-se e lembrou-se de seu livro, de um trecho que tinha alguma ligação com o que acabara de ocorrer. Gunther tomou mais um pedaço de pele de carneiro, sua pena com a ponta embebida em tinta, e escreveu:

Gloria ad filium!

No mesmo instante em que mostrou a mensagem ao menino, o menino tocou-lhe o coração com a mão e saiu correndo daquela casa. Gunther novamente achava-se extasiado com este novo acontecimento inusitado. E cada vez que pensava no anterior, e neste, crescia sua força de ir até o destino final. Percebeu então, que o cantil de água dado pelo menino estava em suas mãos. Foi beber um pouco mais daquele vinho, mas quando percebeu, viu que era água, como era de ser da primeira vez. Não se importou e bebeu toda a água, e saiu caminhando seguro por Bizâncio, sem que ninguém ousasse levantar um só dedo contra ele. Voltava o nosso amigo nórdico à sua jornada, que parecia estar blindada a todo tipo de maldade ou iniquidade...